Eu tenho uma tristeza que nem a própria tristeza sabe que eu a tenho. Eu a sinto, ela não sabe da sua existência na minha vida. Por isso mesmo ela é indecifrável, um breu de códigos que dificultam a descoberta dela, em mim.
O dia de fazer anos, para mim, é sempre uma glória e uma morte. No mar de sensações e misturas refrigeradas que sou, sempre assim o sou mais nesse dia chegado. Eu me descabelo por tantas coisas que ainda me faltam conquistar e, ao mesmo

tempo, me penteio, finjo uma máscara e me preparo para sair em marcha carnavalesca, comemorar e exagerar na dose, ou nas doses. Fico pisando nesse terreno de incertezas do que quero, das indecisões múltiplas que me perseguem. No dia, ao acordar, ou antes de dormir, na hora do almoço ou de calçar algum sapato, eu tenho que ter a virtude de decidir se o que quero mesmo é ser alegre ou ser triste, pelo resto das minhas 24 horas. Estou com impaciência das minhas indecisões infindas. Não sei se no meu dia de fazer anos, tranco-me, afogo-me de lágrimas e solidão, multiplico minhas gorduras saturadas, minhas espinhas faciais me fartando de comidas, açúcares e glicose, ou se apenas saio, como outro dia qualquer, comum, que me aguarda pelo aparecimento do Sol ou do azul, como mais uma criatura que um dia nasceu, e viverá sempre se renascendo.
Ninguém mais precisa saber do dia em que estreiei no mundo. Sim. Estreiei. Somente eu e aqueles que já tem em suas mentes bilhetes que lembrem essa data. Eu quero me enfiar entre os quereres daqueles tantos que me rodeiam e esperam tudo do futuro, e as vezes nada, ou que façam do seu hoje seu total itinerário para o paraíso, ou simplismente desfaçam esse hoje em algo breve e pretérito, insignificante. Taí, eis um exemplo da minha indecisão diária. As vezes considero mais fácil, apto, ágil, falar dos meus "não's". Não quero pomposidades. Quero hoje simplicidade... acho que é isso...
Penso que nada me fará tirar de mim essa tristeza insólita, por isto mesmo, talvez, a indecisão, autotrófica, de me afundar em meu mim. A indecisão de não me levar a caminho algum, por que um único caminho já fora imposto. A da tristeza enigmática.
Eu, o indeciso da tristeza incompreendida em pleno fazer anos. Que todos os anos não sejam assim.
Primeiro então: parabéns. Não sei o dia, mas vc encaixa ai na data certa. PArabés pela estréia. E é assim, a tristeza inspira e a gente solta letras que nos ajudam a metabolizar tudo isso. Que assim seja por muitos anos. Mais felizes, mas tão inspirados quanto.